quinta-feira, 22 de abril de 2010

Rouxinois à conversa

Nos tempos que correm a crise serve-se todos os dias.Quentinha em pratos de barro com talheres de chumbo e em mesas esburacadas pelo caruncho.
Não há humano nenhum neste fétido lugar que não deixe cair lágrimas purulentas. Lamurias condescendentes que contaminam a vida de problemáticos dilemas.
A crise é para se viver largando tudo o resto e dedicando-se a ela.
O contágio é evidente.
Até os outros, os que perigosamente coabitam com esta espécie deprimentemente mortal lançam no ar os seus cantos preocupação .

- Esta crise veio para durar! Não achas?
- É verdade!A precariedade não escolhe géneros.
- Onde cai, abala mesmo.
- Olha vê tu que ainda no outro dia passei no bar do Pica....
- Nem se reconhece, também passei por lá ontem.
- Há uns anos atrás nem se punha lá o pé a esta hora.
- Pois era, sempre cheio! andorinhas, poupas, cotovias, melros, rouxinóis, rolas, pombos, todos juntos. O pica ficava louco, não tinhas asas a medir.
- Aquilo é que eram tempos! Pedíamos sempre um pires de larvas e dava para a noite toda.
- Belos tempos. sem dinheiro fazíamos a festa toda!
- E depois para terminar vinham os pardais a criar algazarra. O bar fechava sempre com o cabo mocho a prender dois ou três.
- E lembras-te da Poupa?!
- Ui!! que passarinha.
- Agora tá casada com um andorinhão! um passarão que trabalha no estrangeiro. Bom pássaro, só que lá está, a crise deslocaliza muita gente. Há muitos ninhos defeitos por causa desta crise.
- É verdade, ora vê-se lá, ter que ir trabalhar para outro país.
- Hoje já ninguém anda à vontade como dantes. Fecham-se todos nos ninhos e não querem saber de mais nada. É só trabalho e poupar! trabalho e poupar.
- E comer também.
- Por falar em comer!Ontem refastelei-me. Comi uma minhoca que estava mesmo à vista num montinho de terra e depois mesmo ali ao lado um escaravelho e depois uma aranha.
- Pois também eu. lembras-te onde estava aquela velha máquina de lavar a louça?
- Sim.
- Agora já lá não está. Tiraram-na ontem. E mesmo por baixo estava um ninho de cobras!
- Pois eu sei que moravam lá. Via sempre a águia cobreira a pairar por lá à espera de alguma que saísse.
- Olha que deve ter enchido bem o papo pois nesse dia comeu-as todas!
- Depois disso fui eu até lá e ainda comi umas larvas e uns escaravelhos.
- Ultimamente só me aparece disto! É larvas, escaravelhos, minhocas e até salamandras!
- Os humanos estiveram a limpar a floresta. Ontem vi uns poucos a tirar ferro, plásticos e vidro.
- Hum! então é por isso que há tanta comida e tão deliciosa à vista!
- Até faz esquecer a crise!
- Já não temos que procurar tanto para encher os papos!
-Não há crise que dure para sempre.


domingo, 18 de abril de 2010

Quando a máquina de chiclas deixou de ter chiclas!

A loja da tia Tina vendia de tudo!Pelo menos tudo o que precisava de comprar encontrava sempre lá.
Aquele móvel de prateleiras estendidas ao longo da parede por trás do balcão de madeira de carvalho gasto pelo movimento das despesas mensais das gentes da minha aldeia guardava um mundo de surpresas.
- Ó tia Tina tem cadernos para escrever?
E lá vinha a tia Tina com um bonitinho caderninho de duas linhas com o Silvestre e o Piú Piú na capa!
Desenrascava-me sempre!!
Só que eu ia lá não para limpar as prateleiras das raridades.
Eu propositadamente deslocava-me todos os dias àquela loja para ver a máquina de chiclas.
A linda máquina de chiclas. Lá estava ela no topo do balcão, com a sua cúpula em vidro redonda meia cheia de chiclas de todas as cores. Aquela cintura quadrada de um vermelho metalizado dava um outro brilho à loja! e o conteúdo deixava-me doido de desejo.
Pegava na moeda reservada, introduzia no orifício cinzento metalizado e rodava o manípulo.
Depois lambuzava-me com aquela saborosa chicla colorida!
- O menino é cá um lambareiro! - dizia-me a tia Tina - Ainda lhe caem os dentes.
- Não caem nada. eu lavo-os todos os dias.
- Este menino vem cá todos os dias! Tira-me sempre uma chicla da máquina! comentava a tia Tina
- Se fosse a si não as comia! devem estar fora de prazo! - Disse-me o tio Jorge!
- Olhe que não estão! são bem boas! dizia eu a sorrir
Todos os dias tirava uma chicla. todos os dias via a bonita máquina de chiclas ficar mais vazia!
Até que um dia a máquina encravou!
Rodei e rodei o manipulo! e nada! a chicla não saía.
- Deve estar estragada! não meta mais nenhuma moeda. avisou-me a tia Tina
- Não meto não! veja lá se manda arranjar a máquina!
- Ah! vá lá saber agora quando vem o técnico!
Fiquei desolado!
A máquina de chiclas deixou de me dar chiclas! Era como se a máquina das chiclas não tivesse mais chiclas apesar de elas estarem ali na linda cúpula redonda de vidro, inúteis porque não as conseguia tirar!
Durante o dia todo não consegui trabalhar!
Tinha mau hálito e faltava-me algo!
No dia seguinte a mesma coisa! mais uma moeda para o galheiro! a máquina continuava avariada. E as chiclas coloridas a estimularem as minhas glândulas salivares!
E mais um dia que passei a desejar uma chicla.
Andei assim a semana inteira! A desejar chiclas, e aborrecido porque não as conseguia tirar daquela máquina!
Passado um mês, sem chiclas, reparei que as muitas espinhas que tinha pela cara deixaram de brotar!
- Devia ser das chiclas. - pensei eu! O tio Jorge tinha razão. As chiclas esburacavam-me a testa toda!
Fiquei com a pele muito mais bonita! Andava sem dúvida muito mais contente e reparava que as minhas colegas de trabalho olhavam mais para mim!

Passado dois meses tive de ir à loja!
- Ó menino! olhe que a máquina esta arranjada! já podes comprar chiclas. - Disse a tia Tina!
- O que a tia Tina me foi dizer! - disse eu
Fui ao bolso tirei uma moeda metia-a no orificio e zás! rodei o lindo manipulo cinza!
- Ó tia Tina, chlép, que saudades, chlép, tinha eu destas chiclas , chlép!
- É tão lambareiro este menino! - Comentava a Tia Tina!
E assim voltei a tirar diariamente a minha chicla da máquina de chiclas!
E escusado será dizer que passei a andar com a cara esburacada das espinhas que me nasceram!
Já foi muito bom aqueles dois meses de pele suave e fina! agora volto novamente à minha espinhosa e oleosa testa!
E também com a boca mais doce Chlép!