terça-feira, 27 de março de 2012

O ladrão de estórias

Era uma vez um ladrão que conhecia todas as artimanhas para roubar e para assaltar as pessoas! Não havia fechadura que lhe guardasse segredo nem cofre que não se abrisse quando este o tocava.
O ladrão era muito temido e todos se escondiam quando ele se aproximava de alguma casa ou de alguma terra.
Um dia o ladrão, ao passar por uma aldeia, decidiu parar no café para beber uma cerveja e descansar um pouco! Ao entrar reparou que o café estava vazio. Apenas viu algumas pessoas numa mesa ao canto, o empregado, o patrão e uma moça, que devia ser filha do patrão. Estavam todos muito concentrados a ler cada um o seu livro que nem se aperceberam da entrada do ladrão no café.
O ladrão dirigiu-se para balcão a esfregar as mãos de contente pois pensava que ia roubar facilmente o café, já que ninguém parecia dar por ele.
Abriu a caixa registadora, tirou o dinheiro e o patrão nem uma pestana mexeu. Serviu-se de uma garrafa de wishkey, bebeu um gole e no final partiu a garrafa, fazendo um enorme barulho. O empregado da mesa nem suspirou. Irritado o ladrão rebentou com o cofre e tirou de lá todo o dinheiro. O patrão nem se moveu!
- EI! - Gritou o ladrão - Eu estou a assaltar o café! Ninguém se importa?!
- Shiuuuu! Faz pouco barulho por favor! - disse a moça.
- Não vês que estamos a ler e que estás a perturbar a nossa leitura?! - Disse o empregado do café.
- A ler??! - Disse espantado o ladrão!
- Coitado! Ele nem deve saber ler!! - Disse o patrão.
- Pois não, nem deve saber o que são letras, nem frases! Passa o todo o tempo a roubar coisas que nem sabe o que é ler! - disse a moça.
Dito isto continuaram a leitura concentrados e em silêncio não se importando minimamente com o que o ladrão fazia.
O ladrão irritado com aquela humilhação saiu a correr do café e foi direito à escola para se matricular. Tinha decidido aprender a ler e provar que era capaz de ler tão bem ou melhor do que eles!
Uns dias depois o ladrão voltou ao café! Levava na mão um livro e reparou que o empregado, o patrão e a moça ainda estavam no mesmo sitio, concentrados e em silencio a ler. Então, o ladrão, respirou fundo e de peito erguido começou a ler em voz alta:
- E O LO BO DI SS E PA RA O POR QUI NHO A B RIR A PO R TA!!
- Shiuuu! Parece que o ladrão ficou gago! - disse o empregado.
- O que é isso que tens na mão? disse a moça!
- É um livro e estou a ler-vos uma história! - disse o ladrão
- Ignorem-no! Vê-se mesmo que não sabe ler! - disse o patrão
- Nem sequer sabe unir as silabas!! - disse o empregado.
- Pelo menos que não grite para não perturbar a nossa leitura. - Disse a moça.
E continuaram a ler, cada um o seu livro, concentrados e em silencio o que deixou ainda mais furioso o ladrão.
Mais uma vez humilhado, o ladrão saiu a correr do café e voltou novamente para a escola para aprender a ler melhor.
Uns dias depois o ladrão saiu da escola e voltou ao café. E na mesa do canto, encontrou novamente o empregado, o ladrão e a moça compenetrados nas suas leituras.
O ladrão tirou o livro do bolso e começou a ler:
- E o lobo bateu três vezes na porta e pediu ao porquinho para entrar!
- Ah! Eu conheço essa estória?! - Disse a moça
- É a estória dos três porquinhos - Disse o empregado.
- Pois é! Continua ladrão! queremos ouvir-te a contar o resto! - disse o patrão
- Ah! e que bem que ele conta! - comentou a moça.
O ladrão contou o resto da estória e o patrão, o empregado e a moça escutavam deliciados. No final da estória, eles tornaram-se muito amigos do ladrão. O patrão convidou o ladrão para trabalhar no café a contar estórias para os clientes que passavam e assim o ladrão já não precisava de roubar mais ninguém.

(estória adaptada)

O "Oculista"

Era uma vez um menino que não via muito bem. Ele esforçava-se por ver as letras e os desenhos dos livros que adorava, esforçava-se para ver a mãe e o pai quando estes o chamavam da cozinha para o jantar, esforçava-se só que não conseguia ver nada. O doutor diagnosticou-lhe miopia e deu-lhe um par de óculos com uma lentes muito grossas e que lhe pesavam muito no nariz! mas isso não fazia mal, porque agora o menino já conseguia ler as letras dos livros e ver como o pai e mãe que o chamavam eram bonitos. E pela primeira vez não tropeçou nos degraus da escada da escola, pela primeira vez viu como era luminosa e espaçosa a sala de aula, e também pela primeira vez viu os meninos troçarem dele na escola!
- Eheh!! Olha o caixa de óculos!! diziam uns.
- Eh lá grandes lunetas!! É para ver estrelas à noite?! - Gozavam outros
O menino ouvia os colegas troçarem dele e ficava muito triste e zangado. Tentava não se importar com os comentários dos colegas, afinal, agora, conseguia ver as coisas que todos os outros viam.
Um dia enquanto brincava no recreio da escola ouviu alguém chamá-lo "Oculista".
Irritado e ofendido o menino olhou fixamente para a cara do provocador e onseguiu ver nitidamente o quanto ele era gordo e feio. Bem mais gordo e feio do que ele que tinha aqueles óculos que lhe pesavam no nariz! E então gritou:
- E tu és uma pipa de banhas com pernas!
O provocador fugiu a chorar para se queixar à professora! O menino de punhos serrados ergueu o peito e continuou a brincar perante o olhar espantado dos amigos.
A partir desse momento mais ninguém o chamou de "oculista".