I – O jovem príncipe
Na época das
cruzadas havia um senhor, muito rico e poderoso que reinava as terras nortenhas
da península ibérica. Dizia-se que era tão
grande o seu reino que as suas terras eram banhadas tento pelo mar
mediterrâneo como pelo oceano atlântico.
Este rei tinha um filho e o herdeiro de todo o seu reino. O príncipe era um jovem alto e
espadaúdo de cabelos louros como as searas de trigo e olhos azuis como o mar.
Era muito inteligente e exímio nas artes da caçada. Estas virtudes faziam dele
um príncipe muito querido e admirado por todos no reino e adivinhava-se-lhe um
grande reinado.
As exigências da fé na altura
demandavam que os grandes senhores cedessem homens para integrar as cruzadas de forma a
libertar Jerusalém dos mouros que a oprimiam. Seria uma grande honra, também,
se os grandes senhores integrassem as cruzadas para pelejar e expulsar os
mouros da terra Santa. O jovem príncipe, movido pela força da sua juventude e
pela sua enorme fé organizou ele próprio um regimento de cruzados e decidiu partir
com os cruzados para expulsar os mouros da terra santa.
Tal atitude deixou o rei muito orgulhoso
porque tão nobres sentimentos regiam o coração do seu filho. E tal era o seu
contentamento que o decidiu presentear com uma magnífica festa de despedida. Para a festa convidou todos nobres, e senhores das suas terras e todos os reis das terras
vizinhas.
A festa foi um esplendor. Todos
os convidados foram recebidos pessoalmente pelo rei e pelo jovem príncipe. Na
sala de jantar, estava posta, no centro, uma enorme mesa com 250 lugares, para
os 250 convidados. Foram mortas 250 galinhas e assados 250 javalis, todos caçados
pelo próprio príncipe. No salão de festas um grupo de jograis afinava os
instrumentos para acompanhara dança Carola que seria o ponto alto da
comemoração. A festa de despedida corria assim sob um ambiente de grande
requinte e felicidade.
Durante o jantar, o jovem
príncipe trocou o olhar com uma jovem princesa. Era uma formosa princesa que
tinha uns longos, sedosos e brilhantes cabelos negros e a sua pele brilhava
mais do que os 500 candelabros que iluminavam o enorme salão de jantar. Da
troca de olhares ficara o coração do príncipe cativo e selara uma porta que
viria a somente a ser aberta quando o jovem príncipe abordou a princesa para dançar
com ele a dança Carola.
Da dança nasceu uma forte
cumplicidade em que os dois jovens corações se descobriam a cada passo deixando
florescer o amor que os unia ainda mais. Dos corações dos jovens príncipes
transbordava o mais puro amor.
Na hora da partida para as
cruzadas e por entre juras de amor eterno, a jovem princesa chorava o seu amor
pelo jovem príncipe, dizendo que o seu coração lhe pertencia, que esperaria
pelo seu regresso e que jamais casaria com alguém que não ele. Por outro lado o
jovem príncipe, cativo de paixão, jurava que o amor que sentia por ela o iria
proteger e o iria trazer são e salvo daquela demanda para depois desposá-la e
viver o amor que lhe brotava do peito.
Partiu o jovem príncipe para a
terra santa onde se destacou pela sua bravura e inteligência, e, protegido pelo
amor que levava no peito, que cantava a cada cavalgada, conquistou inúmeras
cidades e expulsou com o seu exército hordas de muçulmanos. A sua empresa
devolveu inúmeras cidades aos cristãos e recuperou tesouros de valor
incalculável para a igreja.
Na corte a fama do cavaleiro
destemido e conquistador ganhava a cada dia mais expressão deixando orgulhoso o
rei e ainda mais saudosa a amada princesa.
Certo dia contou-se que o jovem
príncipe tinha morrido na terra santa e que tão gloriosa haveria sido a sua
morte que seria lembrada durante tempos eternos.
Conta-se que o seu exército fora
atraído para uma armadilha e havia sido dizimado. O valente príncipe havia
ficado só, rodeado por 100 Mouros, que o combateram ferozmente. O cavaleiro,
cantando o amor que tinha pela sua amada foi matando um a um todos os Mouros
que o rodeavam. Por fim, quando havia apenas um Mouro em pé, o jovem príncipe
caiu do cavalo. O Mouro, aproveitando tamanha vantagem, lançou o derradeiro
golpe espetando a espada no coração do valente príncipe. No
lugar onde foi derramado o sangue do jovem príncipe nasceu uma enorme árvore de onde brotam os frutos mais doces daquela região. Diz-se que eram tão doces como o amor que ele sentia.
A amada princesa ficou
inconsolável com a notícia e um grande pesar instalou-se no seu coração. O seu
grande amor havia sucumbido em terras mouras e com ele todos os seus sonhos e
desejos.
Passados muitos anos a desgostosa
princesa foi pressionada, pelo rei e pelos seus familiares, a casar. Uma vida de
dor e sofrimento não era vida própria para uma nobre mulher como ela. A
princesa argumentava que não podiam obrigá-la a abdicar do seu luto e da única
prova de amor que tinha para com o seu amado. Dizia ainda que o seu coração não era capaz
de amar alguém mais que fosse. De nada serviu e, assim, a princesa, contra a sua
vontade, foi casada com um dos mais ricos nobres da região. Porém o seu coração
não poderia pertencer a mais ninguém que não o jovem príncipe e como havia
casado contra a sua vontade, votou-se ao mais profundo dos silêncios, não
pronunciando mais nenhuma palavra. E diz-se que a princesa morreu no mais
tenebroso dos silêncios, desgostosa com a traição que havia sido obrigada a cometer.
Certo dia, chegou à corte um
cavaleiro, vinha da terra santa e anunciava-se como o filho do rei. O soberano
enfurecido com tamanha afronta recebeu o insolente e quando se preparava para o
desmascarar reconheceu, por detrás da barba grande e da tez escura, as feições
do seu filho. Rapidamente se abraçaram e novamente a alegria e o amor tomaram o
lugar do desânimo e da saudade que há muito se havia instalado na corte. O rei
percebeu então, que a história da morte do princepe era falsa e que o bravo cavaleiro
que havia perecido era outro destemido cruzado que não o seu filho.
Então o jovem príncipe perguntou
pela sua amada. O rei disse que havia morrido.
O príncipe não acreditou… Dizia
que havia matado mais de 1000 Mouros com a sua espada, que 200 flechas lhe perfuraram
o corpo e que 200 espadas Mouras o feriram. De todas essas vezes se ergueu
sempre com a mesma coragem, sempre com a mesma força, porque o amor que sentia
pela sua amada o havia protegido e dado forças para continuar a sua demanda. O amor deu-lhe forças para, enfim, regressar a casa para os seus braços.
E nisto contou à frente de todos
as mais de 400 cicatrizes que havia em seu corpo.
Então o rei contou-lhe que a
princesa julgava que tinha morrido numa batalha e que ficara, mesmo assim à sua
espera e que mais tarde havia sido obrigada a casar e que depois disso se votou
a um silêncio tortuoso acabando por morrer desgostosa.
A estas palavras a face do destemido
cavaleiro ficou vermelha de raiva e os seus olhos incharam de ódio. O cavaleiro praguejava contra todos por terem permitido tal casamento.
Como havia sido possível não respeitar a vontade de sua amada e serem capazes
de destruir o amor que ainda sentia e que lhe dava alento para viver. Pobre
princesa que morreu desgostosa.
O príncipe atirou a sua fúria
para os abades que a haviam casado contra a sua vontade e contra a lei da
igreja. A mesma lei que o levou a lutar. O príncipe lançou uma maldição sobre
eles. Dizia que havia de assustar todos os peregrinos que passassem nas suas
terras em peregrinação para Santiago. Os abades haveriam de penar as esmolas
até ao fim das suas vidas!
E dito isto partiu do castelo
montado no seu cavalo negro.
A partir desse momento a vida dos peregrinos a caminho
de Santiago foi transformada num inferno. Havia relatos de peregrinos que
ficavam sem roupas, sem dinheiro, que se perdiam no caminho e que ficavam
gagos, tamanhos eram os sustos que o cavaleiro fazia. Os peregrinos deixaram de
peregrinar até Santiago, com medo do que lhes pudesse acontecer pelo caminho, e
os padres e as igrejas do reino ficaram mais pobres. Diz-se também que nem a
morte do destemido cavaleiro havia dado tréguas aos peregrinos que caminhavam a
Santiago. O seu espírito pairava agora pelo caminho e amaldiçoava os peregrinos
com sustos cada vez maiores e cada vez mais maléficos.
