sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A história do cavaleiro que assustava peregrinos nos caminhos de Santiago

I – O jovem príncipe

Na época das cruzadas havia um senhor, muito rico e poderoso que reinava as terras  nortenhas da península ibérica. Dizia-se que era tão grande o seu reino que as suas terras eram banhadas tento pelo mar mediterrâneo como pelo oceano atlântico.
Este rei tinha um filho e o herdeiro de todo o seu reino. O príncipe era um jovem alto e espadaúdo de cabelos louros como as searas de trigo e olhos azuis como o mar. Era muito inteligente e exímio nas artes da caçada. Estas virtudes faziam dele um príncipe muito querido e admirado por todos no reino e adivinhava-se-lhe um grande reinado.
As exigências da fé na altura demandavam que os grandes senhores cedessem homens para integrar as cruzadas de forma a libertar Jerusalém dos mouros que a oprimiam. Seria uma grande honra, também, se os grandes senhores integrassem as cruzadas para pelejar e expulsar os mouros da terra Santa. O jovem príncipe, movido pela força da sua juventude e pela sua enorme fé organizou ele próprio um regimento de cruzados e decidiu partir com os cruzados para expulsar os mouros da terra santa.
Tal atitude deixou o rei muito orgulhoso porque tão nobres sentimentos regiam o coração do seu filho. E tal era o seu contentamento que o decidiu presentear com uma magnífica festa de despedida. Para a festa convidou todos nobres, e senhores das suas terras e todos os reis das terras vizinhas.
A festa foi um esplendor. Todos os convidados foram recebidos pessoalmente pelo rei e pelo jovem príncipe. Na sala de jantar, estava posta, no centro, uma enorme mesa com 250 lugares, para os 250 convidados. Foram mortas 250 galinhas e assados 250 javalis, todos caçados pelo próprio príncipe. No salão de festas um grupo de jograis afinava os instrumentos para acompanhara dança Carola que seria o ponto alto da comemoração. A festa de despedida corria assim sob um ambiente de grande requinte e felicidade.
Durante o jantar, o jovem príncipe trocou o olhar com uma jovem princesa. Era uma formosa princesa que tinha uns longos, sedosos e brilhantes cabelos negros e a sua pele brilhava mais do que os 500 candelabros que iluminavam o enorme salão de jantar. Da troca de olhares ficara o coração do príncipe cativo e selara uma porta que viria a somente a ser aberta quando o jovem príncipe abordou a princesa para dançar com ele a dança Carola.
Da dança nasceu uma forte cumplicidade em que os dois jovens corações se descobriam a cada passo deixando florescer o amor que os unia ainda mais. Dos corações dos jovens príncipes transbordava o mais puro amor.
Na hora da partida para as cruzadas e por entre juras de amor eterno, a jovem princesa chorava o seu amor pelo jovem príncipe, dizendo que o seu coração lhe pertencia, que esperaria pelo seu regresso e que jamais casaria com alguém que não ele. Por outro lado o jovem príncipe, cativo de paixão, jurava que o amor que sentia por ela o iria proteger e o iria trazer são e salvo daquela demanda para depois desposá-la e viver o amor que lhe brotava do peito.
Partiu o jovem príncipe para a terra santa onde se destacou pela sua bravura e inteligência, e, protegido pelo amor que levava no peito, que cantava a cada cavalgada, conquistou inúmeras cidades e expulsou com o seu exército hordas de muçulmanos. A sua empresa devolveu inúmeras cidades aos cristãos e recuperou tesouros de valor incalculável para a igreja.
Na corte a fama do cavaleiro destemido e conquistador ganhava a cada dia mais expressão deixando orgulhoso o rei e ainda mais saudosa a amada princesa.
Certo dia contou-se que o jovem príncipe tinha morrido na terra santa e que tão gloriosa haveria sido a sua morte que seria lembrada durante tempos eternos.
Conta-se que o seu exército fora atraído para uma armadilha e havia sido dizimado. O valente príncipe havia ficado só, rodeado por 100 Mouros, que o combateram ferozmente. O cavaleiro, cantando o amor que tinha pela sua amada foi matando um a um todos os Mouros que o rodeavam. Por fim, quando havia apenas um Mouro em pé, o jovem príncipe caiu do cavalo. O Mouro, aproveitando tamanha vantagem, lançou o derradeiro golpe espetando a espada no coração do valente príncipe. No lugar onde foi derramado o sangue do jovem príncipe nasceu uma enorme árvore de onde brotam os frutos mais doces daquela região. Diz-se que eram tão doces como o amor que ele sentia.  
A amada princesa ficou inconsolável com a notícia e um grande pesar instalou-se no seu coração. O seu grande amor havia sucumbido em terras mouras e com ele todos os seus sonhos e desejos.
Passados muitos anos a desgostosa princesa foi pressionada, pelo rei e pelos seus familiares, a casar. Uma vida de dor e sofrimento não era vida própria para uma nobre mulher como ela. A princesa argumentava que não podiam obrigá-la a abdicar do seu luto e da única prova de amor que tinha para com o seu amado. Dizia ainda que o seu coração não era capaz de amar alguém mais que fosse. De nada serviu e, assim, a princesa, contra a sua vontade, foi casada com um dos mais ricos nobres da região. Porém o seu coração não poderia pertencer a mais ninguém que não o jovem príncipe e como havia casado contra a sua vontade, votou-se ao mais profundo dos silêncios, não pronunciando mais nenhuma palavra. E diz-se que a princesa morreu no mais tenebroso dos silêncios, desgostosa com a traição que havia sido obrigada a cometer.
Certo dia, chegou à corte um cavaleiro, vinha da terra santa e anunciava-se como o filho do rei. O soberano enfurecido com tamanha afronta recebeu o insolente e quando se preparava para o desmascarar reconheceu, por detrás da barba grande e da tez escura, as feições do seu filho. Rapidamente se abraçaram e novamente a alegria e o amor tomaram o lugar do desânimo e da saudade que há muito se havia instalado na corte. O rei percebeu então, que a história da morte do princepe era falsa e que o bravo cavaleiro que havia perecido era outro destemido cruzado que não o seu filho.
Então o jovem príncipe perguntou pela sua amada. O rei disse que havia morrido. 
O príncipe não acreditou… Dizia que havia matado mais de 1000 Mouros com a sua espada, que 200 flechas lhe perfuraram o corpo e que 200 espadas Mouras o feriram. De todas essas vezes se ergueu sempre com a mesma coragem, sempre com a mesma força, porque o amor que sentia pela sua amada o havia protegido e dado forças para continuar a sua demanda. O amor deu-lhe forças para, enfim, regressar a casa para os seus braços.
E nisto contou à frente de todos as mais de 400 cicatrizes que havia em seu corpo.
Então o rei contou-lhe que a princesa julgava que tinha morrido numa batalha e que ficara, mesmo assim à sua espera e que mais tarde havia sido obrigada a casar e que depois disso se votou a um silêncio tortuoso acabando por morrer desgostosa.
A estas palavras a face do destemido cavaleiro ficou vermelha de raiva e os seus olhos incharam de ódio. O cavaleiro praguejava contra todos por terem permitido tal casamento. Como havia sido possível não respeitar a vontade de sua amada e serem capazes de destruir o amor que ainda sentia e que lhe dava alento para viver. Pobre princesa que morreu desgostosa. 
O príncipe atirou a sua fúria para os abades que a haviam casado contra a sua vontade e contra a lei da igreja. A mesma lei que o levou a lutar. O príncipe lançou uma maldição sobre eles. Dizia que havia de assustar todos os peregrinos que passassem nas suas terras em peregrinação para Santiago. Os abades haveriam de penar as esmolas até ao fim das suas vidas!
E dito isto partiu do castelo montado no seu cavalo negro.
A partir desse momento a vida dos peregrinos a caminho de Santiago foi transformada num inferno. Havia relatos de peregrinos que ficavam sem roupas, sem dinheiro, que se perdiam no caminho e que ficavam gagos, tamanhos eram os sustos que o cavaleiro fazia. Os peregrinos deixaram de peregrinar até Santiago, com medo do que lhes pudesse acontecer pelo caminho, e os padres e as igrejas do reino ficaram mais pobres. Diz-se também que nem a morte do destemido cavaleiro havia dado tréguas aos peregrinos que caminhavam a Santiago. O seu espírito pairava agora pelo caminho e amaldiçoava os peregrinos com sustos cada vez maiores e cada vez mais maléficos.