quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O José e o capitão

Bruoooooooooon! Bruooooooooon!
- Olha José, aquele barco. Está a buzinar!
- Ó mãe, então não vês que é um navio!? – Respondeu indignado o petiz. - Vamos vê-lo? Podemos vê-lo?
- Anda, dá-me a mão. Vamos vê-lo.
E seguiram pela doca, em direção ao cais, molhada aqui e ali pela água salgada do mar. As redes de pesca repousavam amontoadas no chão enquanto que os pescadores lavavam o soalho dos barcos ao som dos guinchos e das gaivotas. Ao longe as ondas do mar traziam o navio para o porto.
- Que navio tão bonito mãe! E olha como é grande. Está pintado de branco como as paredes do meu quarto!
- Vai atracar no porto.  Vem do alto mar e buzina, para alertar o cabo do mar que vai entrar no porto.
- Vem do Japão? – perguntou o petiz
- Sim vem do Japão. – respondeu a mãe.
O rebuliço do cais não dava tréguas ao pequenito José. Peixeiras de canastras à cabeça pregavam para trás e para a frente os preços dos peixes. Fregueses saltitavam pelo cais à procura do melhor peixe. Bancas com peixes de todas as cores, gatos vidrados pelo cheiro dos peixes fresquinhos, gaivotas atentas guinchavam pelo ar. José de mão dada ia caminhando pela labiríntica doca aproveitando cada brecha entre a multidão para espreitar o seu navio.
Quando chegaram o navio já havia atracado.
- Olha José, o capitão do navio. Vamos vê-lo mais de perto!
Era um enorme navio visto assim tão de perto e o pequeno José estava deslumbrado. O capitão, já em terra, dava ainda instruções aos marujos que amarravam as amarras ao cais. O pequeno José gostava do chapéu do capitão. Fazia-lhe lembrar o chapéu do homem dos correios.
- É um navio de piratas? - Perguntou a mãe em tom de brincadeira.
- Ó mãe então não vês que é um navio de marinheiros? Se fosse de piratas tinha uma bandeira de piratas.
- Já não há piratas. Agora só há os tesouros que eles esconderam. - Disse o capitão que escutara o comentário do José.
- E onde é que estão esses tesouros? – perguntou o petiz
- Estão escondidos em grutas secretas, guardados por terríveis piratas, em ilhas no alto mar.
- No alto mar. É perto do Japão mãe?
- Sim é perto do Japão! - disse a mãe sorrindo
- Já encontraste algum tesouro capitão? - perguntou o menino.
- Sim já encontrei muitos tesouros. Uns são de moedas, outros são feitos de folhas.
- E lutaste contra os piratas? 
- Sim. Uma vez derrotei um pirata que em vez de cabelo na cabeça tinha algas. Pelo corpo centenas de lapas encrustadas faziam uma armadura difícil de furar! E era tão alto como uma árvore!
- E como o venceste?
- Fechei-o dentro de uma gruta!
- Eu quero ser capitão e encontrar tesouros. Posso ir contigo? Ó mãe deixas-me ir com o capitão? Eu queria tanto encontrar tesouros!
- Queres vir comigo? – perguntou o capitão. – Olha que a vida de um capitão não é fácil. É preciso estar acordado durante a noite, lutar contra piratas ferozes, estar atento aos perigos do alto mar, passar muito frio, enfrentar tempestades e trovoadas…
- Não me importo! Eu quero ser capitão para navegar pelo alto mar até ao Japão e encontrar tesouros como tu. Leva-me contigo!
- Então eu levo-te.
E disto isto, o capitão olhou para a mãe, piscou-lhe o olho, e, depois, levou a mão ao bolso e tirou de lá uma semente.
- Toma esta semente. Deu-ma um capitão do Japão. Planta-a na terra e cuida bem dela. Quando a árvore crescer e os seus ramos e folhas estenderem sobre a terra uma sombra que agrade a todos eu voltarei para te buscar. E farei de ti um capitão, como eu, para navegares comigo pelo alto mar em busca de tesouros.
O menino ficou radiante com aquela proposta e mal chegou a casa, foi até ao jardim e recolheu um pedaço de terra. Depois procurou um vaso para nele plantar a semente. Por fim sentou-se ao pé da semente e ficou a olhar até que que o dia se fez noite e ele teve que ir dormir.
Esperava ansiosamente que a planta crescesse e que os seus ramos dessem sombra. Sabia que nesse momento partiria para ser capitão, para procurar tesouros escondidos e navegar pelo alto mar, em direção ao Japão.
Só que a semente não crescia! Aliás crescia muito devagarinho. E só passado uns meses é que brotou uma folhinha verde.
- Parece que já temos uma árvore! - disse-lhe a mãe um dia.
- Sim, só que é muito pequenina. Nunca mais cresce! Assim nunca mais vou com o capitão! - Disse triste o menino.
- Se lhe deres muita atenção e a tratares com carinho vais ver que ela cresce rápido.
Então o menino passou a levantar-se cedo todos os dias para cuidar da plantinha. Regava-a, limpava-lhe o pó das folhas, colocava-a no jardim para que o sol aquecesse as raízes e quando estava muito frio levava-a para dentro de casa!
A árvore crescera, porém, o seu tronco não era o suficientemente grande que o menino pudesse dizer que a plantinha era uma árvore, nem os seus ramos o suficientemente largos para dar sombra. O menino percebia que o capitão ainda demoraria a chegar para o levar pelo alto mar e lutar contra os piratas.
Por vezes a mãe dava com ele em brincadeiras de piratas e marinheiros pelos corredores de casa, de espada em punho e lenço na cabeça a defender os tesouros escondidos debaixo da cama, ou então, descobria-o na banheira cheia de água da casa de banho em viagens pelo alto mar em barcos de borracha.
Os anos passaram, a árvore foi crescendo e o capitão nunca mais regressou. A árvore já não era uma plantinha indefesa a precisar de proteção e o José também já não era o menino que esperava o regresso do capitão enquanto brincava aos piratas e aos marinheiros.
O José era agora um homem com sonhos e ambições e já não pensava mais em navegar pelo alto mar em direção ao Japão ou em procurar tesouros perdidos e lutar contra piratas. Achava que isso era coisas de crianças. Agora ambicionava ser engenheiro naval.