quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O velho e o mar

O velho lançou a isca ao mar, esticou as pernas, encostou as costas na borda do barco e fechou os olhos. O sol aquecia-lhe os ossos e, devagarinho, a mente amolecia. Por entre os dedos segurava uma uma linha de pesca. Aguardava por um puxão que lhe daria a refeição para aquela noite. Entretanto, um pequeno pássaro poisou na linha e ficou a olhar para o velho. O velho retribuiu o olhar e admirou aquele belo pássaro. Perguntou-lhe se viajava sozinho, se estaria cansado, pois no alto mar não havia terra para poisar depois de um voo. E começou a falar-lhe dos perigos do mar, do cuidado que deveria ter com os falcões que o poderiam perseguir:
- Os falcões são muito astutos. Vêem bem longe e podem-te apanhar num instante e pequenino como és darias uma bela refeição!
O velho falava-lhe dele, das penas, do bico, dos pequeninos olhos, falava-lhe de outros pássaros como ele e até lhe contou dos albatrozes que o ajudavam a encontrar peixe no alto mar.
- E tu não dizes nada? - disse o velho à espera de uma resposta que quebrasse aquele monólogo.
- Não percebes nada do que eu digo pois não passarinho? Não percebes mesmo nada! Também não importa.
O pássaro compreenderia as palavras daquela conversa, mais tarde, pela experiência, ignorando que um dia teve a oportunidade de voar sobre todos os perigos, tal como um pássaro que verdadeiramente era.
Um puxão forte assustou o passarinho e fê-lo reiniciar a sua jornada mais cedo! 
- Mordeu a sardinha e este é grande! - exclamou contente o velho.
O velho deu linha e deixou o peixe mergulhar pelas profundezas do oceano. Percebia os movimentos do peixe, um por um, apenas pelo pulsar da linha presa entre o polegar e o indicador. Na outra ponta o peixe nadava tranquilo, em aparente liberdade, desconhecendo que lhe seguiam os movimentos. E quando subir à tona para deixar que o sol lhe ilumine as escamas, reflitindo os tons azulados, como já o fez, tantas vezes, o velho irá espetar-lhe o peito com o arpão e sentenciar o fim do magnífico desfile.
O velho sabia que içá-lo para fora da água era uma questão de tempo.
- Até ao jantar é uma apenas uma questão de tempo! - Disse o velho.

Adaptação de um trecho do livro o velho e o mar de Ernest Hemingway

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