quinta-feira, 21 de março de 2013

As calças mágicas

Os ramos das árvores da floresta bambaleavam ao sabor do vento e as folhas trinavam serenas melodias. Aqui e ali raios de sol penetravam a densa ramagem das árvores e iluminavam o solo coberto de folhas castanhas e quebradiças. Na margem do rio, Musi, olhava a água límpida e cristalina. Queria mergulhar e chafurdar o lodo em busca de larvas para o jantar, só que a ideia de passar o resto da tarde frio e molhado desencorajava-o.
- Não precisas de mergulhar Musi. Eu preparo umas bagas para o jantar. Estamos na primavera, mas o sol ainda está fraco, ainda não aquece. Não te molhes.
- Brrrrr!!! - Gemeu o Musi ao colocar o pé na água - que água gelada. Ia demorar muito tempo a secar.
- Isso é porque não tens uma toalha! - Ouviu-se por entre os arbustos.
O Musi e a Musa, surpreendidos olharam para ver quem estava ali.
- Olha Musi é um Furão. - disse a Musa.
- Se tivesses uma toalha podias secar-te facilmente. - disse o Furão.
- Tu também não tens uma toalha. - Disse o Musi.
- Quem disse que não tenho?! - E dito isto levou a mão ao bolso das calças e tirou de lá uma toalha. 
- Toma, eu empresto-te. Agora já te podes secar.
- Que bonitas calças tens tu! - Disse a Musa.
- São mágicas! - Disse o Furão.
- Mágicas?! - Exclamaram os musaranhos.
- Sim mágicas! Consigo tirar tudo o que quiser de dentro dos bolsos delas. Toalhas, calções, chinelos, tudo o que quiser! Basta pensar no que quero, levar a mão ao bolso e tirar para fora.
- Não acredito. Podes tirar tudo o que quiseres? - Perguntaram os musaranhos
- Sim. - Disse o Furão.
- Então tira o meu jantar! - desafiou o Musi.
- Não posso! - Disse o Furão.
- Não podes porquê?
- Porque custa dinheiro.
- Tira o jantar e depois jantas connosco. - disse a Musa
- Humm! Ok, parece-me bem. - Disse convencido o Furão.
Então o furão levou a mão ao bolso e tirou três saborosos pratos de larvas com folhas de amieiro. Tirou mesa, cadeiras, talheres, copos. Depois tirou um garrafão de sumo para aquecer a noite e um abrigo por causa da geada.
Musi e a Musa ficaram deslumbrados com o que estavam a ver.
- O Furão tirou mesmo tudo aquilo do bolso das calças num ápice! - Pensavam
Durante o jantar o Furão contou-lhes que foi, durante muitos anos, animal de estimação de um mago que vivia na montanha amarela. O mago capturou-o quando ele era ainda muito pequenino e habituou-o a caçar os ratos e outros animais que infestavam casa. O furão não gostava nada de caçar. Ele preferia ficar na caminha a dormir. "Caçar que era coisa para gatos" - dizia. Só que tinha de os caçar ou então o dono prendia-o e por vezes batia-lhe.
- Um dia apareceu um homem  na casa do mago e o mago transformou-o em rato. - disse o Furão - Depois obrigou-me a caçá-lo. No final e como recompensa deu-me as calças que o homem trazia vestidas. 
O que o mago não sabia é que a magia que fizera para transformar o homem em rato, havia dado poderes mágicos às calças.
Quando o Furão descobriu que podia tirar tudo o que queria de dentro dos bolsos das calças, começou a pensar que já não precisava mais de viver com o mago a caçar ratos. Ele podia viver sozinho, dormir o tempo todo, pois teria tudo o que queria, bastava, para isso, levar a mão ao bolso.
 Então, um dia, decidiu partir de casa do mago e, desde então, vive no bosque.
O Musi e a Musa, depois do jantar, ficaram muito amigos do Furão que passou a visitá-los e a jantar com eles regularmente.
Um dia o texugo veio falar com o Musi, queixoso e preocupado com a situação do bosque.
- Não se pode viver aqui mais! O bosque já não é o que era. Está tudo cheio de coisas que inúteis ao bosque!! 
- Porque é que estás tão preocupado? O que é que se passa? - Perguntou o Musi
- Então vê lá tu Musi, que eu à porta da minha casa tenho um candeeiro aceso a noite toda. Não consigo dormir por causa da luz! Os caminhos estão todos alcatroados e eu já nem sei qual é o cheiro da terra!
- Como é que aconteceu isso? O que é que se passou? - perguntou o Musi
- É o Furão que está a fazer estas coisas todas. Ele põe a mão no bolso e, zás, tira candeeiros, estradas, cadeiras, tudo o que lhe apetece. 
- Coisas inúteis no nosso bosque e que só poluem. - Disse o Mocho.
- Temos de fazer alguma coisa. - Disse a Musa.
- Sim, vamos de falar com ele. Não pode continuar a poluir o nosso bosque com coisas inúteis.
Então os animais do bosque foram à procura do Furão. Quando o viram ele estava a construir uma pista de gelo na clareira do bosque.
- O que estás a fazer? - perguntou o Musi.
- Estou a fazer uns melhoramentos. 
- Não estás a melhorar nada. Estás a penas a piorar e a poluir o bosque. - Disse o texugo
- Não, Não! Já construí estradas, casas e coloquei postes de iluminação e agora vou construir uma pista de gelo para as crias brincarem. - Disse o Furão.
- Olha, isso que estás a construir não são coisas do bosque! O bosque e os animais não precisam de estradas, de casas ou de candeeiros de iluminação. E as nossas crias preferem brincar com as folhas e com os paus porque não precisam de pistas de gelo! Isto tudo que tiraste dos bolsos são coisas que não pertencem ao bosque e criam dificuldades à vida dos animais. Os animais constroem o que precisam com as coisas que o bosque lhes dá. E isso é o suficiente. Isso é o que as faz felizes. Os animais do bosque também é a mesma coisa. As casas e as estradas não são naturais do bosque. Percebes! Não nos interessa, nem  interessa ao bosque- Disse o Musi.
- Desculpa Musi, não sabia que estava a fazer tanto mal. Julguei que estavam a precisar de um pouco de evolução e inovação. Por isso é que fiz estes melhoramentos todos. Pelos vistos têm razão. Estas coisas todas não se encaixam no bosque e só vos trás dificuldades. Vou pôr tudo como estava.
Então o Furão tirou dos bolsos, árvores, terra, flores e ervas e voltou a pôr tudo no sitio. O bosque voltou a ser o que era. Não mais tirou coisas dos bolsos que não eram do bosque e não mais vestiu as calças mágicas.

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