II – A trazida pelas águas
Passados muitos séculos, o espírito do
cavaleiro que assustava os peregrinos no caminho de Santiago, continuava a
atemorizar os peregrinos, especialmente à noite. Eram tantas as
histórias que quase ninguém se atrevia a peregrinar até Santiago com medo do cavaleiro.
As queixas dos peregrinos, que se viam impedidos
de peregrinar e de cumprir as suas promessas aumentavam de dia para dia.
Um dia, um jovem abade, cansado de não ter
esmolas na caixa da sua igreja e de ouvir tantas queixas dos peregrinos,
decidiu fazer ele mesmo o caminho para falar pessoalmente com o cavaleiro que
assustava peregrinos no caminho de Santiago.
Fazia o abade o caminho quando chegou a
uma aldeia. O caminho seguia por um carreiro que atravessava um bosque. Era noite cerrada e os aldeões aconselharam o abade a não percorrer o caminho porque havia muitos perigos à espreita naquele bosque. O abade não se preocupou e continuou o caminho.
Quando estava bem embrenhado na bruma do bosque, o jovem abade começou a ouvir vozes que o chamavam e leve
brisa rapidamente se transformou num vento forte. Atrás das árvores, o abade,
vislumbrava silhuetas estranhas que se assemelhavam a diabos. À medida que
continuava o caminho ouvia cada vez mais vozes. Todos aqueles perigos assustaram o abade que já não sabia o que fazer.
Até que se lembrou de que todo aquele medo só poderia ser obra do cavaleiro que
assusta peregrinos no caminho de Santiago. Então com todas as suas forças
gritou:
- Cavaleiro que assustas peregrinos no
caminho de Santiago és tu quem me assustas. Porque me queres mal? Sou peregrino
a caminho de Santiago e não te quero mal. Peço que deixes os peregrinos em paz.
O bosque ficou imediatamente em silêncio e
o abade viu o espírito do cavaleiro que assusta peregrinos no caminho de
Santiago a fugir por entre a bruma.
Depois de uma longa etapa o abade decidiu
pedir abrigo numa igreja para repousar e ganhar forças. Durante a noite, quando o abade já dormia, sentiu algo a mover-se. O
abade acordou e qual não foi o seu espanto quando viu uma cobra a serpentear em
cima do seu peito e a lançar-lhe as suas venenosas presas. O abade não se
atemorizou e disse:
- Eu sei que és tu cavaleiro que assustas
peregrinos no caminho de Santiago. E que não me vais fazer mal. Peço que deixes
os peregrinos em paz e que te vás embora.
A serpente transformou-se rapidamente no
espírito do cavaleiro e mais uma vez por entre a bruma da noite ao ser reconhecido.
O abade continuou a sua peregrinação e
houve um dia em que enormes nuvens negras cobriram todo o céu e começou a
chover torrencialmente. A água alagava campos e caminhos
tornando-os impossíveis de percorrer. O vento soprava forte e fazia as
árvores abanar tanto que parecia que iam cair. O Abade procurava um sítio
seguro para se abrigar e para passar a noite, só que iria ser muito difícil com
o temporal que fazia. Então o Abade lembrou-se de que o temporal só poderia ser
obra do cavaleiro que assusta peregrinos no caminho de Santiago, e, fazendo-se
ouvir mais do que a chuva e o vento, o abade gritou:
- Sei que és tu outra vez, cavaleiro que
assustas peregrinos no caminho de Santiago. Porque fazes mal aos peregrinos?
Sei que sofres pela tua amada. Se não assustares mais peregrinos encontra-la-ás nos céus!
Após estas palavras a chuva parou, o vento
transformou-se em brisa e o luar voltou a iluminar novamente a noite.
O abade regressou ao caminho e não teve mais
nenhuma vez medo durante a sua peregrinação.
Diz-se também que depois disto não mais se
ouviram relatos de sustos a peregrinos no caminho de Santiago e que o cavaleiro
havia recuperado a sua amada.
