segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A história do cavaleiro que assustava peregrinos nos caminhos de Santiago

II – A trazida pelas águas

Passados muitos séculos, o espírito do cavaleiro que assustava os peregrinos no caminho de Santiago, continuava a atemorizar os peregrinos, especialmente à noite. Eram tantas as histórias que quase ninguém se atrevia a peregrinar até Santiago com medo do cavaleiro.

As queixas dos peregrinos, que se viam impedidos de peregrinar e de cumprir as suas promessas aumentavam de dia para dia.

Um dia, um jovem abade, cansado de não ter esmolas na caixa da sua igreja e de ouvir tantas queixas dos peregrinos, decidiu fazer ele mesmo o caminho para falar pessoalmente com o cavaleiro que assustava peregrinos no caminho de Santiago.
Fazia o abade o caminho quando chegou a uma aldeia. O caminho seguia por um carreiro que atravessava um bosque. Era noite cerrada e os aldeões aconselharam o abade a não percorrer o caminho porque havia muitos perigos à espreita naquele bosque. O abade não se preocupou e continuou o caminho.
Quando estava bem embrenhado na bruma do bosque, o jovem abade começou a ouvir vozes que o chamavam e leve brisa rapidamente se transformou num vento forte. Atrás das árvores, o abade, vislumbrava silhuetas estranhas que se assemelhavam a diabos. À medida que continuava o caminho ouvia cada vez mais vozes. Todos aqueles perigos assustaram o abade que já não sabia o que fazer. Até que se lembrou de que todo aquele medo só poderia ser obra do cavaleiro que assusta peregrinos no caminho de Santiago. Então com todas as suas forças gritou:
- Cavaleiro que assustas peregrinos no caminho de Santiago és tu quem me assustas. Porque me queres mal? Sou peregrino a caminho de Santiago e não te quero mal. Peço que deixes os peregrinos em paz.
O bosque ficou imediatamente em silêncio e o abade viu o espírito do cavaleiro que assusta peregrinos no caminho de Santiago a fugir por entre a bruma.
Depois de uma longa etapa o abade decidiu pedir abrigo numa igreja para repousar e ganhar forças. Durante a noite, quando o abade já dormia, sentiu algo a mover-se. O abade acordou e qual não foi o seu espanto quando viu uma cobra a serpentear em cima do seu peito e a lançar-lhe as suas venenosas presas. O abade não se atemorizou e disse:
- Eu sei que és tu cavaleiro que assustas peregrinos no caminho de Santiago. E que não me vais fazer mal. Peço que deixes os peregrinos em paz e que te vás embora.
A serpente transformou-se rapidamente no espírito do cavaleiro e mais uma vez por entre a bruma da noite ao ser reconhecido.
O abade continuou a sua peregrinação e houve um dia em que enormes nuvens negras cobriram todo o céu e começou a chover torrencialmente. A água alagava campos e caminhos tornando-os impossíveis de percorrer. O vento soprava forte e fazia as árvores abanar tanto que parecia que iam cair. O Abade procurava um sítio seguro para se abrigar e para passar a noite, só que iria ser muito difícil com o temporal que fazia. Então o Abade lembrou-se de que o temporal só poderia ser obra do cavaleiro que assusta peregrinos no caminho de Santiago, e, fazendo-se ouvir mais do que a chuva e o vento, o abade gritou:
- Sei que és tu outra vez, cavaleiro que assustas peregrinos no caminho de Santiago. Porque fazes mal aos peregrinos? Sei que sofres pela tua amada. Se não assustares mais peregrinos encontra-la-ás nos céus!
Após estas palavras a chuva parou, o vento transformou-se em brisa e o luar voltou a iluminar novamente a noite.
O abade regressou ao caminho e não teve mais nenhuma vez medo durante a sua peregrinação.
Diz-se também que depois disto não mais se ouviram relatos de sustos a peregrinos no caminho de Santiago e que o cavaleiro havia recuperado a sua amada.
No sítio onde o abade gritou nasceu uma fonte que jorra a água mais fresca e mais pura da região. Esta fonte foi baptizada de fonte da “trazida pelas águas” em nome da amada que veio trazida pelas águas das chuvas ao encontro do destemido cavaleiro.


o cavaleiro disfarçado de água de lago

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