quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O José e o capitão

Bruoooooooooon! Bruooooooooon!
- Olha José, aquele barco. Está a buzinar!
- Ó mãe, então não vês que é um navio!? – Respondeu indignado o petiz. - Vamos vê-lo? Podemos vê-lo?
- Anda, dá-me a mão. Vamos vê-lo.
E seguiram pela doca, em direção ao cais, molhada aqui e ali pela água salgada do mar. As redes de pesca repousavam amontoadas no chão enquanto que os pescadores lavavam o soalho dos barcos ao som dos guinchos e das gaivotas. Ao longe as ondas do mar traziam o navio para o porto.
- Que navio tão bonito mãe! E olha como é grande. Está pintado de branco como as paredes do meu quarto!
- Vai atracar no porto.  Vem do alto mar e buzina, para alertar o cabo do mar que vai entrar no porto.
- Vem do Japão? – perguntou o petiz
- Sim vem do Japão. – respondeu a mãe.
O rebuliço do cais não dava tréguas ao pequenito José. Peixeiras de canastras à cabeça pregavam para trás e para a frente os preços dos peixes. Fregueses saltitavam pelo cais à procura do melhor peixe. Bancas com peixes de todas as cores, gatos vidrados pelo cheiro dos peixes fresquinhos, gaivotas atentas guinchavam pelo ar. José de mão dada ia caminhando pela labiríntica doca aproveitando cada brecha entre a multidão para espreitar o seu navio.
Quando chegaram o navio já havia atracado.
- Olha José, o capitão do navio. Vamos vê-lo mais de perto!
Era um enorme navio visto assim tão de perto e o pequeno José estava deslumbrado. O capitão, já em terra, dava ainda instruções aos marujos que amarravam as amarras ao cais. O pequeno José gostava do chapéu do capitão. Fazia-lhe lembrar o chapéu do homem dos correios.
- É um navio de piratas? - Perguntou a mãe em tom de brincadeira.
- Ó mãe então não vês que é um navio de marinheiros? Se fosse de piratas tinha uma bandeira de piratas.
- Já não há piratas. Agora só há os tesouros que eles esconderam. - Disse o capitão que escutara o comentário do José.
- E onde é que estão esses tesouros? – perguntou o petiz
- Estão escondidos em grutas secretas, guardados por terríveis piratas, em ilhas no alto mar.
- No alto mar. É perto do Japão mãe?
- Sim é perto do Japão! - disse a mãe sorrindo
- Já encontraste algum tesouro capitão? - perguntou o menino.
- Sim já encontrei muitos tesouros. Uns são de moedas, outros são feitos de folhas.
- E lutaste contra os piratas? 
- Sim. Uma vez derrotei um pirata que em vez de cabelo na cabeça tinha algas. Pelo corpo centenas de lapas encrustadas faziam uma armadura difícil de furar! E era tão alto como uma árvore!
- E como o venceste?
- Fechei-o dentro de uma gruta!
- Eu quero ser capitão e encontrar tesouros. Posso ir contigo? Ó mãe deixas-me ir com o capitão? Eu queria tanto encontrar tesouros!
- Queres vir comigo? – perguntou o capitão. – Olha que a vida de um capitão não é fácil. É preciso estar acordado durante a noite, lutar contra piratas ferozes, estar atento aos perigos do alto mar, passar muito frio, enfrentar tempestades e trovoadas…
- Não me importo! Eu quero ser capitão para navegar pelo alto mar até ao Japão e encontrar tesouros como tu. Leva-me contigo!
- Então eu levo-te.
E disto isto, o capitão olhou para a mãe, piscou-lhe o olho, e, depois, levou a mão ao bolso e tirou de lá uma semente.
- Toma esta semente. Deu-ma um capitão do Japão. Planta-a na terra e cuida bem dela. Quando a árvore crescer e os seus ramos e folhas estenderem sobre a terra uma sombra que agrade a todos eu voltarei para te buscar. E farei de ti um capitão, como eu, para navegares comigo pelo alto mar em busca de tesouros.
O menino ficou radiante com aquela proposta e mal chegou a casa, foi até ao jardim e recolheu um pedaço de terra. Depois procurou um vaso para nele plantar a semente. Por fim sentou-se ao pé da semente e ficou a olhar até que que o dia se fez noite e ele teve que ir dormir.
Esperava ansiosamente que a planta crescesse e que os seus ramos dessem sombra. Sabia que nesse momento partiria para ser capitão, para procurar tesouros escondidos e navegar pelo alto mar, em direção ao Japão.
Só que a semente não crescia! Aliás crescia muito devagarinho. E só passado uns meses é que brotou uma folhinha verde.
- Parece que já temos uma árvore! - disse-lhe a mãe um dia.
- Sim, só que é muito pequenina. Nunca mais cresce! Assim nunca mais vou com o capitão! - Disse triste o menino.
- Se lhe deres muita atenção e a tratares com carinho vais ver que ela cresce rápido.
Então o menino passou a levantar-se cedo todos os dias para cuidar da plantinha. Regava-a, limpava-lhe o pó das folhas, colocava-a no jardim para que o sol aquecesse as raízes e quando estava muito frio levava-a para dentro de casa!
A árvore crescera, porém, o seu tronco não era o suficientemente grande que o menino pudesse dizer que a plantinha era uma árvore, nem os seus ramos o suficientemente largos para dar sombra. O menino percebia que o capitão ainda demoraria a chegar para o levar pelo alto mar e lutar contra os piratas.
Por vezes a mãe dava com ele em brincadeiras de piratas e marinheiros pelos corredores de casa, de espada em punho e lenço na cabeça a defender os tesouros escondidos debaixo da cama, ou então, descobria-o na banheira cheia de água da casa de banho em viagens pelo alto mar em barcos de borracha.
Os anos passaram, a árvore foi crescendo e o capitão nunca mais regressou. A árvore já não era uma plantinha indefesa a precisar de proteção e o José também já não era o menino que esperava o regresso do capitão enquanto brincava aos piratas e aos marinheiros.
O José era agora um homem com sonhos e ambições e já não pensava mais em navegar pelo alto mar em direção ao Japão ou em procurar tesouros perdidos e lutar contra piratas. Achava que isso era coisas de crianças. Agora ambicionava ser engenheiro naval. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A história do cavaleiro que assustava peregrinos nos caminhos de Santiago

II – A trazida pelas águas

Passados muitos séculos, o espírito do cavaleiro que assustava os peregrinos no caminho de Santiago, continuava a atemorizar os peregrinos, especialmente à noite. Eram tantas as histórias que quase ninguém se atrevia a peregrinar até Santiago com medo do cavaleiro.

As queixas dos peregrinos, que se viam impedidos de peregrinar e de cumprir as suas promessas aumentavam de dia para dia.

Um dia, um jovem abade, cansado de não ter esmolas na caixa da sua igreja e de ouvir tantas queixas dos peregrinos, decidiu fazer ele mesmo o caminho para falar pessoalmente com o cavaleiro que assustava peregrinos no caminho de Santiago.
Fazia o abade o caminho quando chegou a uma aldeia. O caminho seguia por um carreiro que atravessava um bosque. Era noite cerrada e os aldeões aconselharam o abade a não percorrer o caminho porque havia muitos perigos à espreita naquele bosque. O abade não se preocupou e continuou o caminho.
Quando estava bem embrenhado na bruma do bosque, o jovem abade começou a ouvir vozes que o chamavam e leve brisa rapidamente se transformou num vento forte. Atrás das árvores, o abade, vislumbrava silhuetas estranhas que se assemelhavam a diabos. À medida que continuava o caminho ouvia cada vez mais vozes. Todos aqueles perigos assustaram o abade que já não sabia o que fazer. Até que se lembrou de que todo aquele medo só poderia ser obra do cavaleiro que assusta peregrinos no caminho de Santiago. Então com todas as suas forças gritou:
- Cavaleiro que assustas peregrinos no caminho de Santiago és tu quem me assustas. Porque me queres mal? Sou peregrino a caminho de Santiago e não te quero mal. Peço que deixes os peregrinos em paz.
O bosque ficou imediatamente em silêncio e o abade viu o espírito do cavaleiro que assusta peregrinos no caminho de Santiago a fugir por entre a bruma.
Depois de uma longa etapa o abade decidiu pedir abrigo numa igreja para repousar e ganhar forças. Durante a noite, quando o abade já dormia, sentiu algo a mover-se. O abade acordou e qual não foi o seu espanto quando viu uma cobra a serpentear em cima do seu peito e a lançar-lhe as suas venenosas presas. O abade não se atemorizou e disse:
- Eu sei que és tu cavaleiro que assustas peregrinos no caminho de Santiago. E que não me vais fazer mal. Peço que deixes os peregrinos em paz e que te vás embora.
A serpente transformou-se rapidamente no espírito do cavaleiro e mais uma vez por entre a bruma da noite ao ser reconhecido.
O abade continuou a sua peregrinação e houve um dia em que enormes nuvens negras cobriram todo o céu e começou a chover torrencialmente. A água alagava campos e caminhos tornando-os impossíveis de percorrer. O vento soprava forte e fazia as árvores abanar tanto que parecia que iam cair. O Abade procurava um sítio seguro para se abrigar e para passar a noite, só que iria ser muito difícil com o temporal que fazia. Então o Abade lembrou-se de que o temporal só poderia ser obra do cavaleiro que assusta peregrinos no caminho de Santiago, e, fazendo-se ouvir mais do que a chuva e o vento, o abade gritou:
- Sei que és tu outra vez, cavaleiro que assustas peregrinos no caminho de Santiago. Porque fazes mal aos peregrinos? Sei que sofres pela tua amada. Se não assustares mais peregrinos encontra-la-ás nos céus!
Após estas palavras a chuva parou, o vento transformou-se em brisa e o luar voltou a iluminar novamente a noite.
O abade regressou ao caminho e não teve mais nenhuma vez medo durante a sua peregrinação.
Diz-se também que depois disto não mais se ouviram relatos de sustos a peregrinos no caminho de Santiago e que o cavaleiro havia recuperado a sua amada.
No sítio onde o abade gritou nasceu uma fonte que jorra a água mais fresca e mais pura da região. Esta fonte foi baptizada de fonte da “trazida pelas águas” em nome da amada que veio trazida pelas águas das chuvas ao encontro do destemido cavaleiro.


o cavaleiro disfarçado de água de lago

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A história do cavaleiro que assustava peregrinos nos caminhos de Santiago

I – O jovem príncipe

Na época das cruzadas havia um senhor, muito rico e poderoso que reinava as terras  nortenhas da península ibérica. Dizia-se que era tão grande o seu reino que as suas terras eram banhadas tento pelo mar mediterrâneo como pelo oceano atlântico.
Este rei tinha um filho e o herdeiro de todo o seu reino. O príncipe era um jovem alto e espadaúdo de cabelos louros como as searas de trigo e olhos azuis como o mar. Era muito inteligente e exímio nas artes da caçada. Estas virtudes faziam dele um príncipe muito querido e admirado por todos no reino e adivinhava-se-lhe um grande reinado.
As exigências da fé na altura demandavam que os grandes senhores cedessem homens para integrar as cruzadas de forma a libertar Jerusalém dos mouros que a oprimiam. Seria uma grande honra, também, se os grandes senhores integrassem as cruzadas para pelejar e expulsar os mouros da terra Santa. O jovem príncipe, movido pela força da sua juventude e pela sua enorme fé organizou ele próprio um regimento de cruzados e decidiu partir com os cruzados para expulsar os mouros da terra santa.
Tal atitude deixou o rei muito orgulhoso porque tão nobres sentimentos regiam o coração do seu filho. E tal era o seu contentamento que o decidiu presentear com uma magnífica festa de despedida. Para a festa convidou todos nobres, e senhores das suas terras e todos os reis das terras vizinhas.
A festa foi um esplendor. Todos os convidados foram recebidos pessoalmente pelo rei e pelo jovem príncipe. Na sala de jantar, estava posta, no centro, uma enorme mesa com 250 lugares, para os 250 convidados. Foram mortas 250 galinhas e assados 250 javalis, todos caçados pelo próprio príncipe. No salão de festas um grupo de jograis afinava os instrumentos para acompanhara dança Carola que seria o ponto alto da comemoração. A festa de despedida corria assim sob um ambiente de grande requinte e felicidade.
Durante o jantar, o jovem príncipe trocou o olhar com uma jovem princesa. Era uma formosa princesa que tinha uns longos, sedosos e brilhantes cabelos negros e a sua pele brilhava mais do que os 500 candelabros que iluminavam o enorme salão de jantar. Da troca de olhares ficara o coração do príncipe cativo e selara uma porta que viria a somente a ser aberta quando o jovem príncipe abordou a princesa para dançar com ele a dança Carola.
Da dança nasceu uma forte cumplicidade em que os dois jovens corações se descobriam a cada passo deixando florescer o amor que os unia ainda mais. Dos corações dos jovens príncipes transbordava o mais puro amor.
Na hora da partida para as cruzadas e por entre juras de amor eterno, a jovem princesa chorava o seu amor pelo jovem príncipe, dizendo que o seu coração lhe pertencia, que esperaria pelo seu regresso e que jamais casaria com alguém que não ele. Por outro lado o jovem príncipe, cativo de paixão, jurava que o amor que sentia por ela o iria proteger e o iria trazer são e salvo daquela demanda para depois desposá-la e viver o amor que lhe brotava do peito.
Partiu o jovem príncipe para a terra santa onde se destacou pela sua bravura e inteligência, e, protegido pelo amor que levava no peito, que cantava a cada cavalgada, conquistou inúmeras cidades e expulsou com o seu exército hordas de muçulmanos. A sua empresa devolveu inúmeras cidades aos cristãos e recuperou tesouros de valor incalculável para a igreja.
Na corte a fama do cavaleiro destemido e conquistador ganhava a cada dia mais expressão deixando orgulhoso o rei e ainda mais saudosa a amada princesa.
Certo dia contou-se que o jovem príncipe tinha morrido na terra santa e que tão gloriosa haveria sido a sua morte que seria lembrada durante tempos eternos.
Conta-se que o seu exército fora atraído para uma armadilha e havia sido dizimado. O valente príncipe havia ficado só, rodeado por 100 Mouros, que o combateram ferozmente. O cavaleiro, cantando o amor que tinha pela sua amada foi matando um a um todos os Mouros que o rodeavam. Por fim, quando havia apenas um Mouro em pé, o jovem príncipe caiu do cavalo. O Mouro, aproveitando tamanha vantagem, lançou o derradeiro golpe espetando a espada no coração do valente príncipe. No lugar onde foi derramado o sangue do jovem príncipe nasceu uma enorme árvore de onde brotam os frutos mais doces daquela região. Diz-se que eram tão doces como o amor que ele sentia.  
A amada princesa ficou inconsolável com a notícia e um grande pesar instalou-se no seu coração. O seu grande amor havia sucumbido em terras mouras e com ele todos os seus sonhos e desejos.
Passados muitos anos a desgostosa princesa foi pressionada, pelo rei e pelos seus familiares, a casar. Uma vida de dor e sofrimento não era vida própria para uma nobre mulher como ela. A princesa argumentava que não podiam obrigá-la a abdicar do seu luto e da única prova de amor que tinha para com o seu amado. Dizia ainda que o seu coração não era capaz de amar alguém mais que fosse. De nada serviu e, assim, a princesa, contra a sua vontade, foi casada com um dos mais ricos nobres da região. Porém o seu coração não poderia pertencer a mais ninguém que não o jovem príncipe e como havia casado contra a sua vontade, votou-se ao mais profundo dos silêncios, não pronunciando mais nenhuma palavra. E diz-se que a princesa morreu no mais tenebroso dos silêncios, desgostosa com a traição que havia sido obrigada a cometer.
Certo dia, chegou à corte um cavaleiro, vinha da terra santa e anunciava-se como o filho do rei. O soberano enfurecido com tamanha afronta recebeu o insolente e quando se preparava para o desmascarar reconheceu, por detrás da barba grande e da tez escura, as feições do seu filho. Rapidamente se abraçaram e novamente a alegria e o amor tomaram o lugar do desânimo e da saudade que há muito se havia instalado na corte. O rei percebeu então, que a história da morte do princepe era falsa e que o bravo cavaleiro que havia perecido era outro destemido cruzado que não o seu filho.
Então o jovem príncipe perguntou pela sua amada. O rei disse que havia morrido. 
O príncipe não acreditou… Dizia que havia matado mais de 1000 Mouros com a sua espada, que 200 flechas lhe perfuraram o corpo e que 200 espadas Mouras o feriram. De todas essas vezes se ergueu sempre com a mesma coragem, sempre com a mesma força, porque o amor que sentia pela sua amada o havia protegido e dado forças para continuar a sua demanda. O amor deu-lhe forças para, enfim, regressar a casa para os seus braços.
E nisto contou à frente de todos as mais de 400 cicatrizes que havia em seu corpo.
Então o rei contou-lhe que a princesa julgava que tinha morrido numa batalha e que ficara, mesmo assim à sua espera e que mais tarde havia sido obrigada a casar e que depois disso se votou a um silêncio tortuoso acabando por morrer desgostosa.
A estas palavras a face do destemido cavaleiro ficou vermelha de raiva e os seus olhos incharam de ódio. O cavaleiro praguejava contra todos por terem permitido tal casamento. Como havia sido possível não respeitar a vontade de sua amada e serem capazes de destruir o amor que ainda sentia e que lhe dava alento para viver. Pobre princesa que morreu desgostosa. 
O príncipe atirou a sua fúria para os abades que a haviam casado contra a sua vontade e contra a lei da igreja. A mesma lei que o levou a lutar. O príncipe lançou uma maldição sobre eles. Dizia que havia de assustar todos os peregrinos que passassem nas suas terras em peregrinação para Santiago. Os abades haveriam de penar as esmolas até ao fim das suas vidas!
E dito isto partiu do castelo montado no seu cavalo negro.
A partir desse momento a vida dos peregrinos a caminho de Santiago foi transformada num inferno. Havia relatos de peregrinos que ficavam sem roupas, sem dinheiro, que se perdiam no caminho e que ficavam gagos, tamanhos eram os sustos que o cavaleiro fazia. Os peregrinos deixaram de peregrinar até Santiago, com medo do que lhes pudesse acontecer pelo caminho, e os padres e as igrejas do reino ficaram mais pobres. Diz-se também que nem a morte do destemido cavaleiro havia dado tréguas aos peregrinos que caminhavam a Santiago. O seu espírito pairava agora pelo caminho e amaldiçoava os peregrinos com sustos cada vez maiores e cada vez mais maléficos.

quinta-feira, 21 de março de 2013

As calças mágicas

Os ramos das árvores da floresta bambaleavam ao sabor do vento e as folhas trinavam serenas melodias. Aqui e ali raios de sol penetravam a densa ramagem das árvores e iluminavam o solo coberto de folhas castanhas e quebradiças. Na margem do rio, Musi, olhava a água límpida e cristalina. Queria mergulhar e chafurdar o lodo em busca de larvas para o jantar, só que a ideia de passar o resto da tarde frio e molhado desencorajava-o.
- Não precisas de mergulhar Musi. Eu preparo umas bagas para o jantar. Estamos na primavera, mas o sol ainda está fraco, ainda não aquece. Não te molhes.
- Brrrrr!!! - Gemeu o Musi ao colocar o pé na água - que água gelada. Ia demorar muito tempo a secar.
- Isso é porque não tens uma toalha! - Ouviu-se por entre os arbustos.
O Musi e a Musa, surpreendidos olharam para ver quem estava ali.
- Olha Musi é um Furão. - disse a Musa.
- Se tivesses uma toalha podias secar-te facilmente. - disse o Furão.
- Tu também não tens uma toalha. - Disse o Musi.
- Quem disse que não tenho?! - E dito isto levou a mão ao bolso das calças e tirou de lá uma toalha. 
- Toma, eu empresto-te. Agora já te podes secar.
- Que bonitas calças tens tu! - Disse a Musa.
- São mágicas! - Disse o Furão.
- Mágicas?! - Exclamaram os musaranhos.
- Sim mágicas! Consigo tirar tudo o que quiser de dentro dos bolsos delas. Toalhas, calções, chinelos, tudo o que quiser! Basta pensar no que quero, levar a mão ao bolso e tirar para fora.
- Não acredito. Podes tirar tudo o que quiseres? - Perguntaram os musaranhos
- Sim. - Disse o Furão.
- Então tira o meu jantar! - desafiou o Musi.
- Não posso! - Disse o Furão.
- Não podes porquê?
- Porque custa dinheiro.
- Tira o jantar e depois jantas connosco. - disse a Musa
- Humm! Ok, parece-me bem. - Disse convencido o Furão.
Então o furão levou a mão ao bolso e tirou três saborosos pratos de larvas com folhas de amieiro. Tirou mesa, cadeiras, talheres, copos. Depois tirou um garrafão de sumo para aquecer a noite e um abrigo por causa da geada.
Musi e a Musa ficaram deslumbrados com o que estavam a ver.
- O Furão tirou mesmo tudo aquilo do bolso das calças num ápice! - Pensavam
Durante o jantar o Furão contou-lhes que foi, durante muitos anos, animal de estimação de um mago que vivia na montanha amarela. O mago capturou-o quando ele era ainda muito pequenino e habituou-o a caçar os ratos e outros animais que infestavam casa. O furão não gostava nada de caçar. Ele preferia ficar na caminha a dormir. "Caçar que era coisa para gatos" - dizia. Só que tinha de os caçar ou então o dono prendia-o e por vezes batia-lhe.
- Um dia apareceu um homem  na casa do mago e o mago transformou-o em rato. - disse o Furão - Depois obrigou-me a caçá-lo. No final e como recompensa deu-me as calças que o homem trazia vestidas. 
O que o mago não sabia é que a magia que fizera para transformar o homem em rato, havia dado poderes mágicos às calças.
Quando o Furão descobriu que podia tirar tudo o que queria de dentro dos bolsos das calças, começou a pensar que já não precisava mais de viver com o mago a caçar ratos. Ele podia viver sozinho, dormir o tempo todo, pois teria tudo o que queria, bastava, para isso, levar a mão ao bolso.
 Então, um dia, decidiu partir de casa do mago e, desde então, vive no bosque.
O Musi e a Musa, depois do jantar, ficaram muito amigos do Furão que passou a visitá-los e a jantar com eles regularmente.
Um dia o texugo veio falar com o Musi, queixoso e preocupado com a situação do bosque.
- Não se pode viver aqui mais! O bosque já não é o que era. Está tudo cheio de coisas que inúteis ao bosque!! 
- Porque é que estás tão preocupado? O que é que se passa? - Perguntou o Musi
- Então vê lá tu Musi, que eu à porta da minha casa tenho um candeeiro aceso a noite toda. Não consigo dormir por causa da luz! Os caminhos estão todos alcatroados e eu já nem sei qual é o cheiro da terra!
- Como é que aconteceu isso? O que é que se passou? - perguntou o Musi
- É o Furão que está a fazer estas coisas todas. Ele põe a mão no bolso e, zás, tira candeeiros, estradas, cadeiras, tudo o que lhe apetece. 
- Coisas inúteis no nosso bosque e que só poluem. - Disse o Mocho.
- Temos de fazer alguma coisa. - Disse a Musa.
- Sim, vamos de falar com ele. Não pode continuar a poluir o nosso bosque com coisas inúteis.
Então os animais do bosque foram à procura do Furão. Quando o viram ele estava a construir uma pista de gelo na clareira do bosque.
- O que estás a fazer? - perguntou o Musi.
- Estou a fazer uns melhoramentos. 
- Não estás a melhorar nada. Estás a penas a piorar e a poluir o bosque. - Disse o texugo
- Não, Não! Já construí estradas, casas e coloquei postes de iluminação e agora vou construir uma pista de gelo para as crias brincarem. - Disse o Furão.
- Olha, isso que estás a construir não são coisas do bosque! O bosque e os animais não precisam de estradas, de casas ou de candeeiros de iluminação. E as nossas crias preferem brincar com as folhas e com os paus porque não precisam de pistas de gelo! Isto tudo que tiraste dos bolsos são coisas que não pertencem ao bosque e criam dificuldades à vida dos animais. Os animais constroem o que precisam com as coisas que o bosque lhes dá. E isso é o suficiente. Isso é o que as faz felizes. Os animais do bosque também é a mesma coisa. As casas e as estradas não são naturais do bosque. Percebes! Não nos interessa, nem  interessa ao bosque- Disse o Musi.
- Desculpa Musi, não sabia que estava a fazer tanto mal. Julguei que estavam a precisar de um pouco de evolução e inovação. Por isso é que fiz estes melhoramentos todos. Pelos vistos têm razão. Estas coisas todas não se encaixam no bosque e só vos trás dificuldades. Vou pôr tudo como estava.
Então o Furão tirou dos bolsos, árvores, terra, flores e ervas e voltou a pôr tudo no sitio. O bosque voltou a ser o que era. Não mais tirou coisas dos bolsos que não eram do bosque e não mais vestiu as calças mágicas.